Curso da Fundação ALB e Aurora Coop aproxima estrangeiros da cultura brasileira

11/05/2026

Há um detalhe que chama atenção antes mesmo de qualquer discurso começar: o mapa-múndi cabe inteiro dentro da unidade da Aurora Coop em Guatambu. Ele aparece nos corredores, nos refeitórios, nas linhas de produção e, sobretudo, nos sotaques. Espanhol, crioulo haitiano, português atravessado pela pressa de quem precisou recomeçar a vida longe de casa. Esse mosaico humano ganhou voz, emoção e reconhecimento institucional nesta semana, durante a homenagem de conclusão do curso Conecta Imigrantes, promovido pela Fundação Aury Luiz Bodanese (ALB), mantida pela Aurora Coop.

A cerimônia ocorreu dentro da própria unidade industrial, diante de colegas, lideranças da cooperativa e representantes da Unochapecó, instituição parceira do curso. Trinta colaboradores estrangeiros receberam certificado depois de uma jornada iniciada em fevereiro, com dez encontros voltados à integração social, profissional e cultural.

Para os participantes, o Conecta Imigrantes funcionou como uma espécie de ponte invisível entre dois mundos: o país que ficou para trás e o Brasil que ainda precisa ser decifrado. Darwin Barreto, de 22 anos, atravessou essa ponte. Venezuelano, estudante de engenharia elétrica em seu país de origem, ele chegou a Chapecó há cerca de um ano e meio e quer crescer dentro da empresa. Pensa em estudar gestão de pessoas ou recursos humanos, ao descobrir uma nova paixão depois da imigração: trabalhar com gente.

“Esse curso mudou na minha vida o jeito que eu tinha de enxergar as coisas, tanto na vida pessoal quanto na profissional. Eu entendi muitas coisas da Aurora Coop e da Fundação. Aprendi sobre gestão financeira, saúde mental, construção de vínculos”.

PLURALIDADE

Hoje, a Aurora Coop possui mais de 14 mil imigrantes em seu quadro funcional, com mais de 20 nacionalidades convivendo diariamente. O gerente da unidade, Gustavo Oscar Hoelscher, percebe uma mudança concreta nos participantes depois do curso. “A evolução é bem nítida. Percebemos uma interação diferente e eles se tornam multiplicadores para os novos estrangeiros que chegam na unidade ou no município.”

E essa multiplicação mostra que o acolhimento deixa de ser exclusivamente institucional e passa a circular entre os próprios imigrantes. Quem chegou antes ajuda quem desembarca depois. A adaptação deixa de ser um esforço solitário. Foi exatamente isso que a venezuelana Ydanis Jimenez encontrou. Ela trabalha há três anos como cozinheira no restaurante da unidade e define o Conecta Imigrantes como uma oportunidade de crescimento “tanto profissional como pessoal”.

“Os temas não serviram só para o crescimento profissional, mas também para aprender a se relacionar com as pessoas, com os chefes, com o ambiente de trabalho”, disse. Ydanis fala sobre o Brasil sem idealizações e reconhece semelhanças culturais com a Venezuela, mas destaca a necessidade de saber mais sobre sua nova casa. “Às vezes nós chegamos sem conhecimento total das leis, dos direitos e dos deveres no Brasil. O curso trouxe essas informações que não temos completas no nosso dia a dia.”

A colaboradora Veruska Saray leu um texto em espanhol diante dos colegas. “Aqui aprendemos algo muito mais profundo: aprendemos a escutar uns aos outros, a nos respeitar e a entender que, embora venhamos de países diferentes como Haiti ou Venezuela, compartilhamos sonhos, lutas e esperanças”, disse.

Depois, resumiu a experiência migratória como “nada fácil”, destacando o apoio recebido pelo curso. “Este curso nos trouxe ferramentas, sim, mas também nos lembrou de algo muito importante: que não estamos sozinhos, que temos valor, que temos direitos e que também temos o poder de construir uma vida digna, com respeito e esforço.”

TRANSFORMAÇÃO

O presidente da Fundação Aury Luiz Bodanese, Oscar Trombeta, afirmou que o objetivo do projeto é transformar inclusão em prática concreta. “Nós vivemos numa sociedade multifacetada. Nada mais justo do que desenvolver ações no sentido de incluir as pessoas. Não apenas no discurso ou na retórica, mas em práticas que tragam resultados positivos.”

O curso é uma parceria entre Fundação, Aurora Coop e Unochapecó e surgiu para enfrentar um desafio contemporâneo do Oeste catarinense: como integrar milhares de trabalhadores estrangeiros e, ao mesmo tempo, construir pertencimento social.

Os módulos do curso abordaram cooperativismo, comunicação, educação financeira, saúde mental, direitos e deveres, relacionamento interpessoal, qualidade, segurança e educação ambiental.